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"Arte existe porque a vida não basta, liberta a gente da mediocridade dos dias", analisa Denise Fraga

"Arte existe porque a vida não basta, liberta a gente da mediocridade dos dias", analisa Denise Fraga

“Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.”

O texto de Plínio Marcos é usado por Denise Fraga para ilustrar a comoção que nos últimos anos tem levado milhares de pessoas a ver a peça “Eu de Você”, protagonizada por ela e dirigida por seu marido, Luiz Villaça. Quem lhe mostrou a frase foi o diretor e dramaturgo Samir Yazbek, depois de assistir à montagem que esteve em cartaz por cinco anos. Na obra, ela se transforma em muitas personagens, contando histórias cotidianas de pessoas reais que enternecem a qualquer um.

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“É a experiência mais gratificante que já tive no palco. Quero fazer um livro dessa peça, por ter uma capilaridade de histórias. Como o projeto começou, como as pessoas mandaram seus relatos, como foi feita a seleção e a costura das histórias. Essa peça me salvou”, ela afirma sobre o projeto que nasceu no fim de 2018 e atravessou os anos de pandemia, com uma pausa no período de isolamento. E, para atingir o núcleo macio citado por Plínio, ela explica, é preciso conversar muito.

Denise Fraga
Foto: TINKO CZETWERTYNSKI / Velvet

A atriz gosta de conversar. Na plateia do Tuca, o teatro da PUC SP, onde a peça foi encenada até dezembro de 2023, ela elege pessoas que ocupam as quase 700 cadeiras do local para trocar ideias. Invariavelmente, diz que gostaria de saber mais sobre seus interlocutores, e lamenta não poder engatar o papo por ter que começar o espetáculo. O resto da audiência sorri — ouvir a voz de Denise é como escutar uma vizinha querida, uma amiga de escola, alguém íntimo que sempre esteve por ali.

“Sou interessada na vida cotidiana. As pessoas têm ligações muito inusitadas e a vida supera a arte. Nada é óbvio”, explica. Mostrar a vida de gente comum não é novidade. Por vários anos, as histórias de pessoas brasileiras foram eternizadas na série “Retrato Falado”, do Fantástico, na Globo. “São mais de 176 relatos pitorescos e cotidianos, mesmo que não tenham tanto aprofundamento psicológico”, ela lembra. Quando está estudando um personagem, é comum recorrer à memória desse trabalho para acrescentar traços de personalidade àqueles que interpreta, como uma “enciclopédia de gente”.

Gosto da expressão ‘o ator faz a palavra pular’. O ator é um polidor de palavras. A pausa que eu dou faz você entender aquilo que você não leu

Projetos longos são uma rotina na carreira que se estende há quatro décadas. Nos anos 80, ficou seis anos em cartaz com “Trair e Coçar é só Começar”, espetáculo que a revelou como atriz de comédia. Nos últimos anos, nas conversas que engata no teatro, calha de encontrar quem nunca havia estado em um espetáculo, mas que é fã de “Retrato Falado” e “O Auto da Compadecida”, seus grandes sucessos televisivos. “Há também algumas pessoas que só haviam visto ‘Trair e Coçar’, ela afirma, ciente de sua importância no Brasil para fomentar a cultura. “É tentar ser água no meio das pedras — não ceder, mas fluir, escorregar”.

No palco, em “Eu de Você”, Denise contracena com uma banda de mulheres. Encarna personagens que deixam latente a sobrecarga feminina. Canta, dança, se joga. Quando fala sobre o relacionamento abusivo que é cerne de uma das histórias, ouve fungadas na plateia. “É avassalador. Já houve vários casos de gente que saiu no meio dessa cena, mulheres que levantam chorando. Estamos vivendo um momento retroativo. Muitas pessoas estão nomeando seus relacionamentos abusivos agora”, diz.

Denise Fraga
Foto: TINKO CZETWERTYNSKI / Velvet

Na profusão de contatos e interações em tempos de hiperconexão, Denise pondera: “A tecnologia é fascinante. E eu sou contemporânea desse tempo, vi a virada. Meus bisnetos precisam estudar a minha geração, que conseguiu a duras penas lidar com toda a mudança. Mas acho que a gente perdeu, porque virou um grande mercado, comprando um tênis sem querer em vez de ir atrás da poeta que a gente mais gosta…”, diz.

Para ela, o jeito de sobreviver ao caos “do muito”, do bombardeio de informações e imagens, é o autoconhecimento. Saber onde clicar, achar as agulhas no palheiro, sem se perder consumindo o que lhe foi empurrado pelo algoritmo. “É preciso navegar no lixo para achar pérolas e pode ser que você se suje”, diz. Na sequência, cita Caetano Veloso, em “Anjos Tronchos”: “Mas há poemas como jamais/ Ou como algum poeta sonhou/ Nos tempos em que havia tempos atrás/ E eu vou, por que não? Eu vou”.

Interpretado por ela, o espetáculo “Tem Tempo Pra Tudo” é fruto de mais uma parceria com seu marido, Luiz Villaça, que escreveu o texto junto a Vinicius Calderoni. Produzida pela Café Royal, a montagem discute nosso uso do celular. “É ele que me permite dirigir em São Paulo! Mas também por conta dele estamos falando frases pela metade e achando que estamos estabelecendo diálogo…”, reflete.

A plateia que lotou o Teatro Vivo saiu reflexiva — há um momento na apresentação em que Denise aborda um dos presentes e pergunta quantas mensagens no Whatsapp ele havia recebido no dia. Diante do número superlativo, ela pede que dezenas de pessoas leiam mensagens simultaneamente. É possível viver assim? “Coitado”, ela repete no palco. Sabemos, está lamentando por todos nós.

Nesse policiamento para não se deixar levar, a atriz tenta evitar o smartphone nos hotéis, por exemplo. “Deixo tocar uma musiquinha calma para mudar esse mal-estar, essa aceleração interna. Na pandemia, sentíamos necessidade de consumir muita informação e criamos o vício de notícias. Agora, é preciso fazer algum esforço pela abstração. Pode ser contar de trás para frente, fazer um trava-línguas, lembrar uma cantiga de infância… Tentar ir para um lugar que não tenha a racionalidade”, explica.

Denise Fraga
Foto: TINKO CZETWERTYNSKI / Velvet

Ela confessa achar o tempo elástico. “Acho que posso fazer mais coisas em uma hora do que é possível. Tem sido uma fase muito intensa da minha vida. Tive várias propostas muito legais e aceitei todas. Estou quase colapsando”, ri de novo.

Entre outros trabalhos, em 2023, gravou um filme por três meses em Portugal, e fez bate e voltas semanais para o Recife, onde gravou outro filme. Tocou a peça durante quase o ano todo. Nas últimas semanas do ano, ainda esteve em Florianópolis gravando outro filme, contou apressada, pois tinha 40 minutos para fazer musculação antes de tingir o cabelo — o que faria decorando o texto do filme, antes de ir ao teatro, à noite. “Faço tudo menos do que gostaria, inclusive ler”, lamenta.

De fala rápida e envolvente, cita Clarice Lispector, Drummond e a poeta polonesa Wisława Szymborska. Sabe, porém, que a verdade mora no silêncio entre as palavras. “A arte existe porque a vida não basta. Liberta a gente da mediocridade dos dias, para entender a vida de cima. Não dá para ser só isso aqui, né? Se for só o material é muito triste e a gente não suporta. É a arte que dá esse gosto, essa vontade”, ela diz antes de se despedir para fazer arte por aí. Que sorte a nossa!

A questão é que, mesmo offline, continuamos online, ‘entelados’. Estamos descuidando de nossa reverberação no mundo. E não podemos abandonar uma pessoa que está entelada, a gente tem que insistir.

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